6.08.2008

A arte de transformar uma tragédia em uma sátira

Vou resumir o fato de uma maneira rápida e precisa: fui espancado e assaltado.

Calma, não arregale os olhos ainda. Eu gostaria de fazer uma análise precisa sobre o que se passou pela minha cabeça na hora, o que eu sentia antes, o que eu sinto agora e o que eu vou comer no almoço de domingo - a minha eterna incógnita.

Pra começar, esse é o tipo de coisa que a gente só acha que acontece com os outros. "Jamais serei assaltado, isso só acontece com pessoas normais". O que eu acabei me esquecendo é que, muitas vezes, para os outros, o outro sou eu. Entendem? É quase como a dengue - todo mundo pega dengue, menos eu. Ainda.

Foi as 7:30 da manhã da última terça-feira. Veja bem, nem o horário condiz com um assalto normal, e esse é o ponto um que sustenta a minha teoria: não foi um assalto normal!

Eu levantei atrasado pra faculdade e corri por uma rua que serve como atalho. O nome desse beco infernal? Rua Saldanha Marinho. Gravem esse nome.

Parte 1: Termópilas

Caminhei uma quadra pela tal rua e então vi que dois sujeitos cambaleantes vinham em minha direção. "Bêbados", pensei. "Vou passar reto por eles como quem não quer nada". Minha estratégia era perfeita, mas logo precisou ser modificada por causa de um detalhe: os dois olhavam fixamente para mim. Quando percebi que os cães estavam perto demais, resolvi dar meia volta, e então a mão de um terceiro segurou meu ombro.

Só deu tempo de olhar pra ele e os outros dois pularam pra cima de mim, agarrando meu moleton. Começei a me debater tentando fugir e então eles começaram a me dar chutes e socos. Nas pernas, nas costas, na barriga, na cara. Em meio a pancadaria, consegui dar um soco na cara de um deles (hoia!). Eu caí, tentei me rastejar pra longe, mas tudo que consegui foram mais chutes pelo corpo. Um deles me puxou pela manga e rasgou meu casaco. Num esforço homérico, levantei-me novamente e começei a correr, mas fui derrubado por uma rasteira, ralando os joelhos e os cotovelos ao cair. No chão, tomei um soco na testa que deixou um galo.

Nisso, percebi que já estava sem mochila e que um dos safados correra em direção ao horizonte. Ergui-me, desesperado gritando por ajuda, mas as pessoas que estavam na rua - sim, haviam pessoas na rua, apenas olhavam, estáticas. Os outros dois tambem fugiram, não sem antes enfiar a mão num dos meus bolsos e puxar o mp4.

É esse é o segundo argumento que sustenta minha teoria: num assalto normal, o(s) meliante(s) chegaria(m) rendendo a vítima, pegando o que havia de valor e só então fugindo. Violência, só em último caso. Nesse, os imbecis chegaram batendo, agarraram a primeira coisa que viram e caparam o gato.

Parte 2: Corram para as colinas

Corrí pra casa. Entrei, percebí que não tinha o que fazer e... chorei. Fazia tempo que eu não chorava. Liguei pra todo mundo e fui registrar o B.O. Essa parte foi engraçada, por que eu cheguei na delegacia todo quebrado, descabelado, com casaco rasgado e o policial simplesmente disse que eu deveria me dirigir à outro setor, duas quadras à diante.

Por sorte os assaltantes não levaram nenhum documento e nem o celular. O problema é que na mochila havia todo o meu material de desenho, um livro da biblioteca e uma daquelas sacolas ecológicas que andam vendendo agora nos supermercados.

O terceiro pilar que sustenta minha teoria foi a imagem que vi no espelho: tirando um galo na testa, um olho inchado, ralões nos joelhos e cotovelos e um tornozelo torcido, não havia marca alguma de golpes pelo meu corpo. Interessante. Deduzí que os bandidos deveriam estar tão drogados que a precisão de seus golpes variaria entre 12 e 15%.

Após esperar cerca de uma hora na fila da delegacia, registrei o boletim de ocorrência - algo tão inutil quanto enfiar o dedo na tomada. Saí de lá e começei a pensar nos materiais que eu deveria recomprar.

Parte 3: Epílogo

Me sentí a pessoa mais fraca do mundo. Não por ter apanhado, mas por ter perdido a linha de raciocínio, a frieza. Por não ter sabido o que fazer. Depois que acontece uma coisa dessas, a gente pensa um monte. "Eu poderia ter feito isso e aquilo. Poderia ter fugido. Poderia ter tomado outro caminho. Poderia, poderia, poderia, poderia". Pensei isso até perceber que eu fui uma anta por ter sido assaltado. Simples assim, fim.

Passei a ter certos medos, certos receios. Mudei em algumas coisas, mas nada que eu diria ser traumatizante.

Ah, os filhos da puta da biblioteca querem que eu pague o livro.

A parte triste da história:

O pior de tudo é que nem apanhando eu aprendo. Já no mesmo dia do assalto algumas piadas surgiram em torno desse fato. Confira as melhores:

"Vamos bater neles e depois roubar suas mochilas!"
- Sobre um grupo de manifestantes;

"Isso, vai, rouba minha mochila agora."
- Ao ser empurrado ou acidentalmente atingido;

"Tá na mochila do Boli!"
- Sobre algo que está sendo procurado há tempos;

"Eles foram burros. Poderiam ter te capturado e pegado a recompensa."
- Sobre o fato de terem me deixado fugir (!);

"Conhece o Mário? Aquele que te comeu na Saldanha Marinho!"
- Modificação da velha piada;

"O que é, o que é: um pontinho preto no meio da Saldanha Marinho?"
- Variante das piadas dos pontinhos coloridos. (resposta: o Boli deitado depois da surra)

"Venham sem serem espancados no caminho."
- Frase dita após um convite;

"Qual é a cor preferida do Boli? Azul Saldanha-Marinho!"
- Piada trash;

"Mas que cara é essa? Veio pela Saldanha Marinho?"
- Frase dita quando alguém está com uma cara toda amassada;

"Ok, vamos. Peguem suas mochilas."
- Ênfase na palavra "mochilas" quando eu estiver presente;

"Espalhou o chantilly quando acertaram tua teta?"
- ...

E mais surgirão. Pode apostar.

Previsão para próximo post: nova música. E sim, eu já estou bem.

4 comentários:

Renato disse...

Essa sensação de impotência depois de um assalto é terrível. Eu a tive na quinta vez que tentaram me assaltar (finalmente obtiveram sucesso heheh, acho até que já a comentei no blog. O mais foda é quando você conta prum "amigo": "Ah, que boiola! Se fosse eu no seu lugar, eu dava uma voadora em cada um!"

Adorei as piadas, principalmente a da cara amassada heheh

tia henca disse...

OMG

Você escreve muito muito bem, calouro!

Por que tá fazendo Design??????

xD

[Samara]

Marco Martins disse...

Ah, se fosse eu dava uma voadora em cada um, Boiola!!

Brincadeira xD

É muito ruim isso, já tentaram me assaltar 3x, na primeira eu era menor e apanhei (leia sair voando da bicicleta com um soco), essa com sucesso, nas outras duas, no ponto de ônibus em FRENTE a escola, e eu sagazmente corri pra dentro dela depois de chutar um deles, e na outra eu só corri. Se quiser te ensino um pouco de Karate no AF, mas não reaja, corra 8D

Pra finalizar: O que é O que é... Cai de pé e corre deitado?!?
R: Boli na Saldanha Marinho

UHAuhaUHAuHA
ps.: a veterana ali disse que tu desenha mal rsrs

júlia disse...

MEU DEUS QUE HORROR ISSO COMO ASSIM AFF
mas confesso que ri das piadas