6.19.2008

Por favor, uma taça de urina para mim e outra para a jovem ao meu lado

Eram mais ou menos umas duas ou três da madrugada quando eu percebi que ainda estava vagando pela rua e já tinha passado dezenove quadras do meu destino original. Não é exagero, também não é amnésia e nem aquela coisa esquisita que chamam de "amor", por que muitos dizem que se esquecem das coisas quando estão apaixonados. Já eu, quando estou apaixonado, acabo lembrando das coisas.

O único som que se ouvia era o do meu sapato batendo no chão. Não fico espantado pelo fato de que a rua estava deserta: não era por isso que meu sapato era a única coisa que se ouvia. O que me deixou abismado foi que eu continuei andando, mesmo depois de ter percebido que minha toca ficou tão pra trás quanto meus... sonhos.

Podia ser pior. Eu podia estar de carro. Isso me faria andar muito mais rápido, me afastar muito mais rápido de lá e também faria com que muito combustível fosse gastado inutilmente - o que, quiçá, levaria a uma daquelas crises que fazem humanos pensarem "puxa, da ultima vez que eu abasteci eu paguei menos".

Ok, tirando a hipótese do carro, eu também poderia simplesmente não ter pernas. Ou pior, eu poderia ter pernas, mas sem saber usá-las. Esses dias eu estava tomando banho e fiquei pensando na seguinte cena: a garota, parada no meio da rua, não percebe que tem um puta dum ônibus se aproximando dela, à toda velocidade. O motorista jamais iria parar o veículo por que... por que... tinha um verme. Um negócio grudado no pescoço dele que controlava seus pensamentos e o fazia acelerar. Isso.

Daí a cena duraria alguns segundos: antes de ser atropelada, eu largaria a mochila e saltaria, pegando a garota no colo e aterrissando suavemente na outra calçada. O ônibus passa reto, causando uma corrente de ar que faz os meus e os cabelos dela esvoaçarem.

...

Nada dramático. O certo seria eu conseguir empurrar o broto pra calçada, mas acabar deitando com as pernas na rua. Ela sobrevive ilesa - talvez com um ou outro arranhão no braço ou nas costas, mas eu não. O ônibus passa pelas minhas pernas e destrói com as duas. O vento faz esvoaçarem apenas os cabelos dela.

Nossa, pensei nisso e fiquei arrepiado de novo, aqui, agora, na rua escura e fria. É, eu não citei que estava fria.

Ah, as hipóteses. Porra, a garota que eu imaginei pra segunda hipótese é bonita, mas não sei se sacrificaria as minhas pernas por ela. Se eu estivesse usando uma roupa legal, acho que sim. A cena ficaria mais clássica, mais... pitoresca. O ruim é que depois eu teria que posar pras câmeras para fotos com a legenda "exemplo de superação", por que me daria vontade de superar a situação deplorável e de formar um time defutebol só de pessoas que tiveram suas pernas arrasadas por ônibus.

Mas no meu caso o ônibus não teria culpa. A garota teria.

Vigésima primeira quadra. Eu nunca estive aqui antes e isso me deu uma vontade insana de me escorar na parede e mijar alí no canto, pra marcar território. Como um cachorro faria. Sei lá, nunca me deu vontade de cheirar a bunda de ninguém pra saber se se trata de um homem ou de uma mulher, mas a idéia de urinar pra marcar território é algo simples e prático.

Foi no Canadá que uma quadrilha (aye, uma quadrilha) de ursos cinzentos começou a atacar os alimentos de um vilarejo. Os habitantes do local, ao invés de optar por armas de fogo ou chantagem emocional, preferiram usar de fogo contra fogo: jogaram urina nas paredes para que os ursos entendessem que o local já estava marcado. Funcionou. Bingo. Os amigos peludos não ousaram se aproximar de um local marcado. É quase como uma foto de uma suástica num beco: aparentemente ela é inútil, mas muitas pessoas não ousarão entrar naquele beco.

Descartando a idéia do mijo (deveras imprópria para um sujeito civilizado), continuei andando em direção ao que aprecia ser uma porta aberta com uma luz amarela vinda de dentro. Ao passar por uma poça d'agua, não reconhecí o absurdo que estava refletido nela.

Entrei. Não precisei socar nenhuma porta pra isso, nem empurrar as duas portinholas de Saloons de filmes de faroeste.Mas bem que eu queria. Não, mentira. Só faria algo assim - o ato de empurrar as duas portinholas, se eu estivesse com uma arma na cintura. Carregada. Daí sim, eu chegaria chutando as portas, me dirigiria até o balcão sem nem ao menos encarar os imbecis que estavam sentados na mesa e pediria "aquela que matou o guarda". Metia bala em algum só pra firmar minha onipresença.

Contudo, o que havia em minha cintura era a aura de um impostor para consigo mesmo. Não só na cintura, mas neste local eu a sentia mais poderosa por causa dos bolsos da calça, carregados de dinheiro em notas vivas.

Ah, preciso descrever o estabelecimento. Tinha uma mulher sentada ao balcão, só. Era tudo o que tinha no bar, as outras pessoas não pertenciam ao bar, nem o blues fajuto e nem a mesa de sinuca. Bosta. Odeio isso. Foi só ver a garota e eu nem lembro mais quantos jogavam truco na terceira mesa.

Tomei coragem, cutuquei dentro da orelha com o dedo mindinho pra ver se alcançava o cérebro e sentei do lado dela. Ví seu perfil, quase sentí um ônibus esmagando minhas pernas: era linda. Pra minha sorte ela percebeu meu súbito interesse e, ao contrário do que a maioria das mulheres faria (pelo menos as que eu conheço), ela virou o rosto pro outro lado e falou o nome de sua bebida favorita.

Pedi a tal, falei que pagava e falei que era a minha favorita também. Putz. Péssimo. Devia ter dito uma frase de efeito, algo como "hum, minha ex-namorada sempre pedia essa", algo de impacto... EPA, essa da ex-namorada é ruim, não gostei. A unica coisa que me veio à cabeça foi... a verdade.

Bebendo tudo num gole só, ela levantou, agarrou a bolsa, me chutou e saiu. Mentira. Queria que isso tivesse acontecido, por que agora ela me encarava e pensava em dizer algo. Desviando o olhar, bebi a minha dose e fiquei pensando em algo divertido pra dizer, quando ela simplesmente sussurrou que caminhou demais e deveria estar em casa agora. "Puxa", comentei emocionado, "eu também!". "Na MINHA casa?", ela perguntou surpresa.

"Heh. Não. Na minha. Mamãe mandou não andar nem dormir com estranhos". Ela riu. Que bacana, eu falei algo que preste, ela riu e eu também, por que de certa forma foi divertido. Assistí o anjo virar o copo num gole só enquanto era agarrado pela gola. Virei-me pra ver quem era e tomei um soco na cara. Um sujeito um pouco maior que eu havia voltado do banheiro e estava aparentemente furioso. Agarrando ela pelos cabelos, saiu xingando e me deixou alí, sentado no chão com o nariz sangrando.

Achei a cena muito bizarra. Me imaginei tomando o soco, a cara que eu devia ter feito ao ter sentido o impacto e achei tudo muito bizarro. Levantei, larguei uma nota no balcão, cambaleei até a saída, me escorei numa parede e... ah não. Já estava molhada.

2 comentários:

Anônimo disse...

Meu Deus! Isso não pode ser verdade xDDD

Se foi ou não, eu ri.

Bianca

Bolívar Escobar disse...

Pareceu verdade? ahauhauahauhauahauh

Non... na real esse texto foi escrito na hora de postar mesmo, em cinco ou seis minutos. É bem legal fazer isso, ir escrevendo o que vem vindo na cabeça, sem se preocupar com a lógic ou coerência. No final ou sai algo muito bizarro ou algo muito ruim.