12.22.2009

História especial de Natal

Duas e meia da manhã. O telefone tocou e eu acordei num salto, desci da cama pisando num patinho de borracha que estava no chão e perdi o equilibrio, caindo por cima dos controles do meu velho Playstation esparramados pelo chão. Enquanto isso o telefone tocava.

Sem enxergarnada, corri pra sala e me atirei no telefone, removendo-o do gancho.

- A..a.a.. alô! ALÔ!

- Vai chover amanhã, cara!

Ih, eu conhecia a voz. Agarrei o canto da mesa e me levantei. Inspirando, reuni alguma dose de sanidade e respondi com calma:

- Adilson... caralho, vai dormir. Sério, puta que pariu, são duas da manhã, não quero saber se amanã vai chover e....

- Cara, tu não entendeu! Amanhã de manhã vai chover muito! É a nossa chance!

Adilson era meu amigo entusiasta da faculdade. Todo mundo tem um amigo assim, céus eu espero que todos sejam abençoados pela presença de uma figura maldita dessas em suas vidas. Vinte e dois anos, alto, magrão e com hábitos peculiares do tipo andar pelo supermercado abrindo embalagens de maionese e trocando as tampas.

- E eu com isso, cara? - retruquei, sem entender.

- Meu plano, lembra? A gente sai de noite e tampa os bueiros.

- Ahn??

- Velho, presta atenção! A gente sai, agora, eu e tu. Eu dirijo. Vamos pro centro da cidade e tampamos todos os bueiros e saídas d'água. Amanhã vai chover bem cedo e vai alagar tudo!

Lembrei. Ele tinha comentado isso um dia, no bar. Jamais imaginaria que estava falando sério - ele declamava uma poesia sobre a cidade alagada segurando um dos sapatos como se fosse a caveira segurada por Hamlet. Mantendo a calma, comentei:

- Mas, cara, não... não vai dar certo, é muito bueiro pra tapar...

- Vai sim, já tenho tudo pronto - exclamou Adilson, interrompendo-me. - Eu passo aí na sua casa, já tenho cimento e argila no porta-malas do carro. Vista-se e pegue uma pá, luvas e sacolas plásticas.

- Mas...

- Não temos tempo a perder! Ah, pegue aquele pote de biscoitos de cima do seu armário da cozinha também - falou, antes de desligar o telefone.

Dez minutos depois estávamos estacionados na frente de uma agência do Banco do Brasil com o material em mãos. Eu ainda vestia a camiseta de pijama.

- É aqui - começou Adilson - que nossa rota de destruição e filha-da-putagem começa.

- E os outros bueiros? Teríamos que tapar todos os da cidade, uma hora a água começa a descer.

- Hehe! Pelos meus cálculos, se taparmos todos dessa rua a partir desse, a água vai elevar-se o suficiente para invadir a maioria dos prédios do centro. Já é o suficiente para a minha alegria.

Consetir ou não consentir, eis a questão. Abri o primeiro saco de argila e soquei na entrada do bueiro. Na minha cabeça, uma imagem minha própria, cinquenta anos mais velho, relatava sorridente para os netos sobre o dia que eu destrui o centro da cidade com meu amigo debilóide.

Enquanto eu tapava os bueiros do lado esquerdo da rua, Adilsom ia tapando os do lado direito. Depois fomos tapando os das ruas adjacentes e as demais saídas de água.

Cerca de cinco horas em ponto, havíamos terminado tudo. Meus braços doíam, mas Adilson parecia ter atingido o Nirvana. Como se não bastasse ter trabalhado toda a noite cantarolando marchinhas de carnaval, ele estava mais empolgado do que um criança no Natal - e seu sorriso aumentava alguns milímetros para cada raio que ecoava no céu e cada gota que começava a cair.

- Entra no carro, Adílson! O pessoal vai sair na rua daqui a pouco e vai ver a gente.

- Tá! Vamos subir o morro da Búfala, lá de cima teremos uma visão panorâmica do caos.

Assim que Adilson deu a ignição no seu Fiat Uno, senti um tremor de terra. Assustado, olhei no retrovisor e o que parecia ser um gorila estava nos perseguindo. Não acreditando, virei o pescoço para trás e, de fato, um homem vestidod e gorila estava seguindo o carro.

- Meu deus, Adilson! Saca só lá atrás!

Adilson espiou e começou a rir. Com um cavalinho-de-pau, virou o carro na direção do homem vestidod e gorila e acelerou, atropelando o desgraçado e fazendo-o saltar por cima do pára-brisa.

- SANTO DEUS, você matou o homem! - berrei, segurando firme no puta-merda. Olhei para Adilson e sua feição era a de um verdadeiro assassino sem coração. Agarrei o ombro do meu amigo e tornei a falar: - Adilson? ADILSON! Cê ta me ouvindo, cara?

A chuva continuava a cair enquanto mais homens vestidos de gorila apareciam. Comecei a entrar em pânico, mas Adilson simplesmente dirigia,d espedaçando o bizarro exército ao passar por cima de seus integrantes. Logo os vidros do carro estavam todos sujos de sangue.

- Pára o carro, mano. Sério, me deixa descer que eu vou a pé pra casa!

E eis que Adilson acelera o carro até bater em um poste. A força do impacto arremessou-me contra o vidro, que quebrou-se e permitiu a projeção do meu corpo para fora do carro. Adilson saiu, sem nenhum arranhão, e meteu um chute em um dos homens vestidos de gorila, enquanto os demais amontoavam-se ao redor dele. A chuva estava ficando realmente forte e dava pra ver o alagamento começando.

- Aaagh meu braço!! - Levantei-me, cambaleando, e corri. Passei pelos sujeitos com roupa de gorila que iam ao encontro de Adilson e entrei em uma cabine telefônica. A chuva, a essas alturas, ja era uma tempestade do caralho e embaçava os vidros da cabine: eu não conseguia ver Adilson no meio dos seus agressores.

Haviam cacos de vidro grudados na minha perna, minha testa estava ralada e meu braço sangrava.

- Central da polícia, bom dia.

- CARAS me ajudem, estão espancando meu amigo aqui na rua.

- Diga o endereço please.

Enquanto falava o nome da rua, ia esfregando o vidro da cabine para tentar ver alguma coisa. Alguns homens com roupa de gorila agonizavam no chão e a "roda" de luta continuava. Adilson devia estar lutando bravamente. Antes de encerrar a ligação, lembrei do alagamento e finalizei:

- ...e mandem um helicóptero, de carro vocês não conseguirão chegar aqui!

Saí correndo da cabine. O vento que acompanhava a chuva era tão forte que me empurrava para trás e a água já cobria completamente meus pés. Lá estava Adilson, todo ensanguentado, sendo segurado por trás por um dos caras enquanto outro o socava na frente. Tomado pela raiva, corri até lá e cheguei na cotovelada, libertando meu amigo.

Nós dois corremos até conseguir subir em um coqueiro. O alagamento já estava absurdamente alto.

- Vejam! - berrou Adilson, erguendo os braços e exibindo par ao universo o seu olho roxo - Contemplem a minha obra!

E, de fato, eis uma obra pitoresca. A correnteza que havia se formado arrastava os homens vestidos de gorila, cestas de lixo, sacolas, outros humkanos que andavam por lá, os carros da polícia e o helicóptero.

Se, para você, a história está boa até aqui, sugiro que não leia as justificativas abaixo:

Qual é o nome do personagem principal?
Sílvio

A cidade alagou mesmo, tipo, muito?
Sim, deu um prejuizo de cerca de setenta milhões para a prefeitura

Por quê homens vestidos de gorila?
Era um clube de homens vestidos de gorila. Eles estavam acordados e ouviram o barulho dos dois jovens vandalizando geral. Decidiram fazer justiça com as própiras mãos... ou melhor, com as mãos das suas fantasias de gorila.

Sílvio e Adílson sobreviveram?
Claro, Sílvio hoje tem sessenta e sete anos e já é vítima de Alzheimer: contou milhares de vezes para os netos sobre o dia que cagou na porrada os homens vestidos de gorila - ou de golfinho, ele não lembra direito.

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Bolívar. Quem fala é o seu amiguinho de Audacity. No momento, não li, mas pretendo, HAHAE! Quando propício, comentário supimpa.

Khan-kun disse...

Por que voce eh doido, e meu amigo, mas isso eh redundante (paripensa)

Daniela disse...

Algo me diz que essa história pode deixar de ser ficção um dia.
* * *
Me comenta e me linka, estrupício.
Bjão

Dalton Alexandre *Myudo* disse...

morri

bolenho disse...

mas que merda heim
odeio suspense posta o resto logo!!