3.23.2010

As moscas de Humberto

Lá: lá no meio da fila gigantesca da barraquinha de sorvetes do McDonalds, alguém estufa o peito com oxigênio e fumaça dos carros e grita, bem alto, quase chorando: Foi-se a época do fixismo.

Já dizia o meu avô, apontando o dedo da mão esquerda pra cima e com a direita segurando a espingarda de dois canos abraçada ao corpo, que Deus via e ouvia tudo, mas que "duvido que teve saco pra fazer tudo isso sozinho". As plantinhas, as nervuras das folhas, os "caguméli": não existe bico de pena fino o suficiente pra desenhar essas coisas. Ah, o meu avô. Seu ditado favorito era "devagar e sempre". Morreu com 82 anos, atropelado por um ônibus.

Foi se a época do fixismo, e todos sabem o culpado disso. Charles Darwin, coitado, quando indagado sobre a complexidade do globo ocular, alegou fortes dores de cabeça e saiu carregado em uma maca pela quinta vez. A galera da Gazeta costuma ser bem pentelha mesmo nessas entrevistas coletivas. Nosso herói, criador (palavra a partir de então menos pronunciada) da teoria do evolucionismo certamente não sabia da dor de cabeça que teria que enfrentar. E os anjos? E o demônio? E a ambrosia?

Hoje pode-se dizer que existem três "correntes": o fixismo, cuja época foi-se, o evolucionismo, cujo criador demorou 30 anos pra anunciá-la (bem mais do que os 7 dias que levou seu concorrente) e o criacionismo. Fazendo um comparativo, pode-se dizer que o fixismo é crer que até os fósseis foram criados por Deus e estão lá pra testar a fé da galera. É acreditar no "faça-se a luz" e no homem bravamente saltando pra fora do barro.

O evolucionismo, pelo contrário, é acreditar no macaco aprendendo a soletrar a palavra "banana". Digamos que "Deus" vira um conceito tão abstrato quanto "Adão e Eva" e é substituído pelo mero acaso - que é defendido, veja só, pelo pescoço das girafas, a prova mais linda de que não há um design inteligente por trás de um pescoço aparentemente inútil se não fosse a necessidade de comer as árvores a partir da copa delas.

Se o fixismo (cuja época já se foi) é o contrário do evolucionismo, então o que e o criacionismo? É o que a Igreja defende e muita gente não sabe: ok, lá vem o macaco andando num monociclo até evoluir e chegar a algo parecido com homem. Antes da academia levantar e aplaudir, no entanto, as nuvens abrem-se no céu e o "sopro divino", o "milagre" ou o "monolito negro" surge e injeta nesse ser evoluído aquilo que carinhosamente apelidamos de alma. O criacionismo é, portanto, crer que por trás de uma evolução física há uma intervenção metafísica que nos tornou seres humanos.

Lindo, não? Mas vamos esquecer tudo isso por enquanto (o fixismo pode ser esquecido para sempre, já que sua época foi-se) e manter nosso foco na parte cômica da coisa: o surgimento da teoria do evolucionismo atiçou os neurônios de muita gente. Uma galera começou a fazer pesquisas no fundo do quintal. Quem tinha uma pontinha de descrença e rancor medieval não tardou a comprar seus tubos de ensaio e exemplares da Origem e começar suas próprias pesquisas.

Em 1910, por exemplo, um homem chamado Morgan, na Inglaterra, decidiu pesquisar sobre as moscas. Iniciativa nobre, pesquisar sobre um animal que curte merda mas que poderia ajudar a desvendar os mistérios da genética. Suas conclusões contribuíram para o avanço da genética atual e inspiraram uma outra figura sobre a qual falaremos aqui: Humbert Von Werwer.

Por volta dos anos 30, esse aventureiro do insólito mundo da ciência teve uma idéia massa. Ela era basicamente algo como: a evolução foi ocasionada pela radiação emitida pelo sol. Se eu expor alguma coisa à radiação ilimitada, essa coisa vai acelerar seu processo evolutivo. Simples, fácil, e, pra época, barato.

Humberto escreveu isso em seu blog e logo recebeu milhares de comentários maldosos dos membros da comunidade científica que assinavam seu feed. "@Humberto Mexa com radiação pra ver teus dedos caindo um por um depois de alguns anos, babaca" postou Marie Currie no Twitter, do seu laptop, na cama do hospital.

Não cedendo aos que iam contra a maré dos seus argumentos, Humbert deu início ao que ele chamou de "Experiência Mosca". Tão auto-explicativo quanto bizarrinho, o experimento consistia exatamente nisso: expor moscas à radiação gama intensiva até que "evoluissem" para o estágio máximo de seus corpos. Em breve Humbert teria moscas gigantes de seis asas e capazes de entender "Os Lusíadas" em sua garagem. Idéia digna de um fanático por Pokémons talvez, não de alguém que pretende honrar os estudos do velho Darwin, eu diria. ÓBVIO que uma merda dessas daria errado, Humberto certamente morreria. Infelizmente não há registros de tal experimento. Ao contrário das façanhas de Morgan, Humbert permaneceu anônimo por que, de fato, ninguém sabe o que aconteceu com ele ou suas moscas.

Por isso, após o sucesso (ou não) da saga de Venceslau, o Pirata que não tinha Perna, começa agora mais uma incrível odisséia desse blog tão educativo:

As Moscas de Humbert

Humbert pegou uma marreta e saiu correndo atrás de seu amigo, o jovem Jules. Este, por ser rápido como uma bala quando em perigo, saltou a janela de um dos quartos da casa de seu amigo e atravessou o jardim, pelado. Humbert, bufando, arrombou a porta e correu em direção a ele, golpeando o objeto pelo ar e acertando, sem querer, a torneira de casa e a miniatura de estátua da liberdade que mantinha no jardim.

Jules conseguiu pular a cerca e dirigiu-se para a esquina, que naquela enevoada noite, poderia ser a rota de fuga do seu crime. Humbert desestiu da perseguição após vê-lo pular a cerca. Voltou para dentro de casa, sentou no sofá e apoiou a cabeça na mão, respirando pesado.
Tomou coragem e foi até o quarto. Sua esposa, Suélem (lol) ainda estava encolhida na cama.

- Tu não me ama mais? - perguntou ela, choramingando.
- Nunca amei.
- Mentira.
- É sério. Sai da minha casa.
- Mas não tenho outro lugar.
- Eu tenho vários outros.
- Sai tu de casa então.
- Talvez. Tu não me ama mais?
- Amo! Amo como nunca amei outro homem, Humbert. Você é único pra mim, eu não saberia viver sem você.
- Então to vazando, falous.

Abriu as portas do guarda-roupa, meteu tudo numa maleta e saiu de novo pela porta arrombada.

- Volte, Humbert! - exclamou Suélem, lá de dentro. Contudo, Humbert nunca foi muito de pensar nas coisas. Ele queria ser bom em algo, começou a estudar biologia sozinho em casa e depois se associou num desses clubes maneiros de gente intelectual. Ficava até tarde da noite com os novos amigos discutindo história, biologia, sociologia e filosofia. Naquela noite, foi o mesmo. Todos os seus amigos estavam lá, menos Jules. Decidiu voltar pra casa mais cedo pra desentupir a calha, e o pegou na cama com a esposa.

- Volto sim. - falou só pra ser sacana, tirou o pinto pra fora e mijou nas calçadas.

Continua...

A faculdade está mortífera, sério. Eu consegui me meter em uma penca de matérias, mais o Centro Acadêmico e lá vai o famigerado Curso de Alemão comer mais pedaços do meu fígado. Eu queria postar mais coisas, ando lendo muita estranheza. Depois de "O Despertar dos Mágicos", comecei outro livro dos mesmos autores entitulado "O Homem Eterno" e ele é tão impressionante quanto. Meu objetivo é transformar essa história do Humbert em algo insólito e mais curto do que aquele porre que foi o Venceslau.

Bem, outro dia eu estava voltando da faculdade e decidir "anotar" os pensamentos aleatórios que passavam pela minha cabeça no intervalo de tempo de 6 ou 7 minutos que eu levo para chegar da Reitoria até a Casa do Estudante. O resultado é algo mais ou menos assim:

"Caralho de reunião demorada, que fome, sério que fome. Chegar em casa e... tem pão, tem queijo e meu deus, que bunda! Sinal vermelho, lá vem carro, espera, espera, ela tá se afastando mas a bunda continua grande uheuehegf queijo, requeijão... queijo e requeijão são palavras parecidas, deve ter gente que acha que requeijão é feito de queijo, que fedor, não gosto de carros, sinal verde. Ela tá olhando pra mim hihihi é bonita, mas tem um troço bizarro no canto da boca. Tem bunda também. Aussteiger. Como se escreve? Assteiger, Austeiger, é com dois "esses", pronuncia "aushtaiga", significa "desembarcado" mas é um termo com duplo sentido por que denota alguém, cara se eu tivesse um bastão de beisebol eu saia na rua de noite pra bater em gente que picha os muros. Que fome. Tenho que chegar em casa e passar a limpo a ficha de inscrição, antes vou tomar banho, caralho, vou dormir as 3 da manhã de novo? Aussteiger. Parece alcunha, "das Austeiger"... não, é "der Austeiger" por que é masculino, ficaria "Austeigerin" se fosse feminino, maldito alemão, nossa, que bonita, hoje tô com sorte por que ta olhando pra mim fgaheuaege passou, que olho bonito, carregava um bolsa que aprecia pesada, acho que se ficasse vesga com aquele olho ainda assim ficaria bonita... não. Não. Poderia chegar perguntando "e aí, loucura ou só amizade" pra ela, nunca mais a verei de novo mesmo. Aussteiger. Aaaah a CEU, cheguei, tem maloqueiro na entrada, devem ser os mesmos que pixam e, nossa, isso daria uma história massa pra colocar no blog, a polícia percebe o instantâneo interromper das pixações e começa a procurar o responsável - um velhinho de cento e dois anos que sai de noite com um bastão de beisebol..."

Que eu lembro é isso.

3 comentários:

Júlia disse...

por isso eu gosto tanto de ti

Anônimo disse...

Sério, depois que vc morrer doe seu cérebro para estudos.
iauhaiuhaiuh

tive que escrever slasmat na verificação de palavras

Nayara Gonzalez disse...

li só a parte azul... (pra varias)

mas achei ótima! super dava um texto dadaísta. huahuahuauhuha