3.03.2010

Tibério, fotógrafo de aves e colecionador de chapéus

A chamada "ararinha-azul" é um dos pássaros mais raros do mundo. Graças ao espírito empreendedor de algumas pessoas que insistiram em capturar e vender ilegalmente exemplares de sua espécie na década de oitenta, hoje podemos chutar que existe um punhadinho de cerca de cinquenta ararinhas-azuis catando minhocas por aí. Triste, não?

Mas não nos culpemos ainda. O exemplo do peixe-leão é um pouco mais sádico: ao contrário da extinção, a atividade humana provocou uma explosão na população desse bichinho. Isso é bom? Claro que não. A praga é tão venenosa que apenas encostar em suas barbatanas é motivo para faltar aula por duas semanas. Graças à brilhante idéia de uma centena de bobalhões que possuiam o peixe em casa, agora o oceano Atlântico está infestado desses animais bizarros. Tal crescimento exagerado de sua população se deu por que as pessoas que tinham espécimes do peixe em casa acabavam devolvendo-no ao mar. Como ele não tem predador natural, aconteceu a mesma coisa que aconteceu quando o homem decidiu tomar conta de tudo.

Tá bom, tá bom. Alguns casos de calamidade ecológica não foram nossa culpa. O tigre-dente-de-sabre, coitado, foi extinto por que tinha pernas curtas demais e não conseguia correr rápido o suficiente para alcançar suas presas. Digno de pena, mas não deixa de ser engraçado. Um felino gigante com dentões medonhos virado de barriga pra cima agitando as perninhas é uma cena bem pitoresca, convenhamos.

Seria justo dar uma manipulada nesses fenótipos. Quero dizer, deixar a ararinha-azul com pernas curtas demais e o tigre-dente-de-sabre com pernas de um tamanho bom (e uma corzinha azul pra ficar tri massa). Talvez assim ambas as espécies estariam vivas hoje e poderiamos ter tigres-dente-de-sabre aparecendo em filmes do Quentin Tarantino.

Voltando ao assunto, os exemplares ainda frescos da ararinha-azul estão pelo Brasil. Azar pra elas, sorte pra Tibério, o fotógrafo de aves e colecionador de chapéus. Desde que adquirira sua Nikon D60 ("uma puta duma câmera", segundo o vendedor), começou a cogitar seriamente a hipótese de seguir carreira como fotógrafo amador - um mercado de trabalho já um tanto saturado desde o surgimento da moda EMO nos Estados Unidos.

Frustrado por nunca ter conseguido iniciar seu negócio de fabricação e venda de rosquinhas e trajando um sombrero mexicano, Tibério decidiu telefonar para seu melhor amigo, Luiggi. Chegou no telefone e apertou o "redial", já que desde que a casa da sua mãe foi soterrada por uma avalanche, ele nunca mais precisou telefonar para outra pessoa.

- Alô, Luiggi?
- Sim.
- Tu acha que eu devo seguir a carreira de fotógrafo amador?
- Sim.
- Estava pensando nisso, cara. Eu tenho uma câmera agora, só falta decidir o que vou fotografar.
- Aves.
- É uma boa idéia!
- Sim.
- Valeu então, amigo!
- Sim.

Com a devida dose de empolgação injetada na veia e agora usando um capacete de aviador, Tibério retirou, com todo o cuidado da galáxia, a câmera de dentro da sacola e ficou algumas horas abraçado nela, deitado no sofá, gemendo baixinho. Tentou disfarçar a ereção dobrando o joelho pra cima.

***

Na outra manhã, bem cedo, nosso rapaz já estava fritando um omelete enquanto levava na cabeça uma cartola. Ele não costumava lavar a frigideira, por isso havia resíduos de bacon e de omeletes de eras atrás junto com o seu.

"Deixarei a frigideira aqui aquecendo enquanto vou dar um mijóvis", pensou. Atravessando o corredor, ele abriu a porta do banheiro e percebeu que algo estava errado. Olhou para a pia, nada. Dentro do box, nada. Entretanto, de dentro da privada, tentáculos roxos balançavam e agarravam coisas que estavam ao redor. Alguns mediam mais de dois metros de comprimento.

- Cacete atômico, que diabos é isso? - exclamou Tibério, já com o humor alterado pelo bizarro fenômeno e vestindo um capacete militar. Certamente um polvo ou lula gigante havia subido pelos encanamentos da casa e agora tentava sair pelo vaso sanitário.

- Alô, Luiggi? - Tibério tratou de imediatamente ligar para seu amigo para reportar o estranho acontecimento.
- Sim.
- Cara, você não vai acreditar. Algum bicho do caralho entalou na minha privada e seus tentáculos estão se debatendo no meu banheiro.
- Mentira.
- Falei que tu não ia acreditar! Hahaha!
- Hehe.

Colocando o telefone no gancho, Tibério retornou ao banheiro e agora fotografava os tentáculos de vários ângulos (fazia isso usando um capacete de ciclista). Enquanto o suposto polvo se debatia desesperadamente e agarrava a toalha de rosto com um de seus tentáculos, o jovem sorria e o flash de sua Nikon D60 iluminava todo o recinto. Passaram-se alguns minutos e Tibério percebeu que os tentáculos estavam ficando cada vez mais compridos.

Obviamente a criatura estava se esgueirando e conseguindo sair, mas seu "corpo" ainda permanecia oculto: apenas os tentáculos aumentavam seu raio de alcance e agora já chegavam até a porta. É claro que Tibério estava muito concentrado focando sua lente nas ventosas e não percebeu que um deles envolvia cuidadosamente sua canela. Foi quando o amável protagonista, já fazendo uso de um boné da Nike, sentiu um cheiro de queimado vindo da cozinha.

- Cacete atômico, meu omelete! - Foi quando Tibério tentou correr que sentiu sua canela presa fortemente a algo e caiu de bruços. A criatura o puxava para dentro do banheiro enquanto nosso herói, agora com uma tiara na cabeça, se agarrava no rodapé da porta e berrava por socorro.

Com um esforço sobre-humano, o jovem conseguiu se arrastar para fora do banheiro e foi até o telefone, que ficava próximo do corredor, ainda com o tentáculo roxo enrolado na canela e tentando puxá-lo de volta para aquele inferno que havia sido feito do banheiro - já todo destruído pelos tentáculos.

- LUIGGI, SOCORRO
- Calma, cara.
- O POLVO TÁ TENTANDO ME COMER, CORRE AQUI EM CASA E ME SALVA!
- Eu nunca fui na sua casa...
- N... NEM EU NA SUA!
- Eu nunca te vi pessoalmente...
- EU TAMBEM NUNCA TE VI, MAS POR FAVOR...
- Eu nem sei quem você é... todo dia você liga aqui em casa falando merda e coisas a respeito da sua vida... você me chama de "Luiggi", meu nome nem é esse.

Nesse momento, Tibério percebeu que, de fato, "Luiggi" era o nome que ele tinha dado para essa pessoa desconhecida para quem ligava praticamente todos os dias desde que fora morar sozinho na cidade de Xerem. Contudo, era tarde demais para ficar se perguntando o porquê de tudo aquilo ou a razão de sua vida parecer agora, sem razão. Ele precisava de ajuda:

- Ok, ok. Luiggi. Ou seja lá qual for o seu nome. Você... precisa me ajudar.
- Fale pra mim o que está acontecendo.
- É difícil explicar, você precisa confiar em mim vir até a minha casa - Tibério se controlava com todas as forças para não berrar no telefone, apesar de estar tomado pelo terror. Algum fator desconhecido, alguma enzima desnaturada, alguma ligação sináptica o havia feito permanecer numa calma sobre-humana.
- Diga-me o endereço e logo estarei aí.

Vestindo uma peruca loira, Tibério falava agora com um completo desconhecido que tratara como melhor amigo durante muito tempo. Não havia sensação no universo que poderia descrever seu estado emocional agora. Após ditar o endereço correto, depositou o telefone no gancho e se deixou arrastar até o banheiro. Agora ele queria morrer.

Contudo, antes de ser erguido pelo tentáculo após entrar no banheiro, uma das portas que ficava à esquerda no corredor se abriu com um chute e de seu interior saiu um homem barbudo armado com uma sub-metralhadora e um machado.

- L... Luiggi? - Sussurrou Tibério, quase chorando.
- Sim!
- Você... mora na minha casa?
- Sim!
- Durante todos esse anos eu telefonava para alguém... que ocupa um quarto no meu corredor?
- Sim!

Elevando o machado para cima da cabeça, Luiggi precipitou-se para dentro do banheiro e, num golpe certeiro, corou fora a perna de Tibério, libertando-o do tentáculo maldito.

- GHHGFUUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!
- Está livre meu amigo!!

Mordendo o lábio inferior por causa da dor lacinante e usando agora um chapéu côco, Tibério contorceu-se no chão, chorando e espirrando sangue nos ladrilhos do banheiro. Enquanto seu amigo sofria, Luiggi metralhava os tentáculos do monstro, que ia se recolhendo aos poucos para dentro da privada. Em poucos instantes, o banheiro estava silencioso. O monstro havia desaparecido por completo e Tibério estava encolhido no chão, gemendo.

- L... Luiggi... - choramingou ele.
- Sim?
- C... corra até a cozinha... e tire meu omelete do fogo.
- Você já pôs sal?
- J... já.
- Posso comer um pedaço?
- D... deve estar todo queimado.
- Bolas.

Enquanto Luiggi se afastava, Tibério levantou a cabeça e observou sua perna, sem vida, largada dentro do box. Começou a chorar de novo. Luiggi voltou para o banheiro tomando leite numa garrafa.

- Q... qual s... seu nome? - perguntou Tibério, fungando o nariz.
- Explosão de Fogo.

Tibério não conseguiu falar mais nada, pois sua perna ainda doía. Usando finalmente um chapéu de pirata, ele sentia que estava desmaiando e ouviu Explosão exclamar, lá longe, algo como "desculpe por nunca ter saído do quarto nem pra cagar, World of Warcraft é legal pra caralho e..."

5 comentários:

Júlia disse...

aaagagaga

Henrique disse...

Achei que por fim ele já estaria usando um capacete de mergulho dos anos 20, mas chapéu de pirata caiu bem. Aliás, para que ter vizinhos quando pode-se ser um pirata? Muito bom!

Pombo disse...

Olha, curti o texto. Li por tédio e não me arrependo. VALEU, BOLÍVAR <robe3

Sal disse...

HSAIUHSAOIuhsAOIuhsAOIhOSAUHoSIUAHoisuoISAUHouASoIASUHSAUISUA FODA PRA CARALHO

Fel disse...

Hahaha Muito Bom !