4.28.2010

As moscas de Humberto - 2

Humberto, agora homeless, foi pro bar.

HUMBERTO NO BAR

- Oi Humberto!
- Oi.
- O que você quer.
- Cerveja.
- Qual cerveja.
- Aquela que ehguuu - Humbert não conseguiu terminar a frase. Estava entrando naquele momento que os humanos do século XXI batizaram de "caiu a ficha". Sentiu seus pés se afastando no chão e largando todo o peso do seu corpo sujo e peludo nos cotovelos apoiados no balcão. Viu, lá longe, sua ex-mulher só de camisola, dando tchau. Depois viu seu cachorro falecido Frederico enterrando um osso. Sentiu o mijo e as lágrimas escorrendo quando viu também aquele episódio de Tom & Jerry no qual Tom é tratado como um bebêzinho e sofre trollagens violentas de seus amigos. Começou a chorar feito uma maricona quando lembrou do suquinho de beterraba que sua mãe fazia.

- Está tudo bem, Humberto? - perguntou o barman enquanto secava um copo. Um pinguço que estava dormindo escorado no balcão também acordou com a choradeira.

- Bem o caralho... abandonei... abandonei minha mulher em casa.
- Oh céus.
- Mijei por todo o jardim.
- Oh céus.
- Mostrei o... o dedo do meio pra ela e fui embora, velhos. - Humberto bateu com a testa no balcão e ficou ali chorando. O mendigo escroto que estava ali do lado caminhou até Humbert e o abraçou por cima do ombro. Quase roçando a barba na orelha dele, sussurrou algumas palavras de sabedoria:
- Humberto... - dizia ele - levante-se. Faça o sonho da nossa geração se tornar realidade.

Com os olhos vermelhos, Humberto ergueu a cabeça e fitou por alguns segundos a figura bizarra que lhe amparava naquele momento.
- Quem... é você?
- Não importa quem eu sou, Humberto. Não importa que somos nós, importa apenas o momento que estamos vivendo, nos sómos e não somos ao mesmo tempo, Humberto! - e interrompeu a fala para soltar um sonoro arroto.
- Como sabe o meu nome, cara? Do que você está falando?
- Você vai descobrir, betinho. Apenas lembre-se dessa palavra: "jojoca".
- Jojoca... jojoca... - disse Humberto, baixinho, para si mesmo. O mendigo virou-se de costas, jogando sua longa capa por cima do ombro, correu até a janela e se atirou para fora do bar, estilhaçando todo o vidro e muito provavelmente quebrando um dos braços.

Alguns segundos de epifania passaram-se pela cabeça de Humbert. Sentiu o couro dos sapatos que usava, sentiu o peso de seu casaco sobre seus ombros, sentiu cada fio de cabelo crescendo: teve uma overdose de sensações, um overload de coisas escrotas, um jogo dos mil erros, uma catarse múltipla de sonhos, pesadelos, sonhos eróticos e pesadelos eróticos. Mal conseguia raciocinar.

- E então, Humbert, qual cerveja você vai querer?
- Eu quero...
- Hmmm?
- Eu... quero...
- ... quer...??
- Eu quero que você se foda.
- O que, como o que foi que você disse meu rapaz eu não acredito que você mandou eu me foder eu não creio que você falou esse absurdo esse palavrão Beto eu não acredito venha cá pra esse lado do balcão pra gente resolver isso agora venha meu querido venha cá.

Mas Humbert não foi. Parecendo hipnotizado, levantou-se do balcão, agarrou sua mala e foi embora, sem dizer mais uma palavra sequer.

HUMBERTO NO LABORATÓRIO

Tomado por uma convicção que sabe Deus de onde saiu, Humbert foi até o clube maneiro de pessoas inteligentes do qual era associado. Era quase onze horas da noite, a única pessoa que ainda deveria estar lá na sede era o bibliotecário, Hamilton.

Hamilton, um jovem entusiasta de 22 anos, adorava pássaros, bicos, penas, minhocas e tudo que pudesse ser relacionado a pássaros - menos ovos, ele odiava ovos. Estava debruçado sobre seu volume de "O Inferno de Dante" quando foi supreendido pelo que parecia ter sido uma explosão vinda da porta de entrada.

"Caralho voador", pensou, enquanto correu pelas escadarias até topar com Humbert, que havia aberto a porta no chute.

- Hu... Humberto? O que você está fazendo aqui?
- Jojoca.
- Hein?

Silêncio. Humberto tentou enforcar Hamilton algumas vezes nos momentso que se seguiram, sem sucesso. O rapazinho era ágil.

- O que há de errado com você, Humbert?
- Deixe-me usar o laboratório.
- Tá... vai, toma aqui a chave. Era só pedir, troglodita.
- Ah tá tá, vá a merda.
- Cara, eu nunca te vi assim.
- Não se sinta especial por isso.

Humberto tomou a chave das mãos de Hamilton e seguiu em direção ao subsolo, deixando os olhos do jovem a fitar o nada. Apesar dos momentos de estranheza, Hamilton sentiu seu coração voltando à frequência normal de batimentos. O que tinha acabado de acontecer iria ficar em sua memória para sempre, trancado às sete chaves, assim como aquela vez em que era ainda um pimpolho e viu seu amiguinho Christian encher de porrada um imigrante chinês, e depois de duas semanas viu o mesmo chinês andando nu na rua, e um mês depois ele encontrou na cueca um bichinho engraçadinho que até hoje mantém em uma gaiola na casa da sua mãe, mas daqui a alguns anos teremos outro post nesse blog pra falar só dessa história.

Continua...

Programa de Auditório do Charles "Frutinha" Simpson

- Olá, amigos e amigas do auditório! Que lindo estar aqui! Que massa é estar aqui com vocês de novo, que bacana poder ver todo mundo sorrindo... menos aquela senhora lá, o que houve com ela... ah, é da produção? Haha, a senhora devia tomar um pouco de toddynho minha senhora! Hahah!

(Risos do resto do auditório, a senhora em questão continua seríssima)

- Hehe... bem, é claro também, agradecendo a você, telespectador, que deve estar ansioso para saber da nossa programação de hoje, não é mesmo, pessoal?

(Auditório responde com um "sim")

- Então vamos lá, o que vai ter hoje no programa, Lombardi? (eu juro que tentei pensar em um nome diferente pra um locutor random qualquer, mas sério, desculpa pessoal, não dá.)

- É isso aí, Charles! Hoje você confere a incrível história do rapaz de dezessete anos que tem a infame profissão de avestruz de treino: ele corre das boleadeiras e facões dos jovens gaúchos dos pampas argentinos que tentam capturá-lo como treinamento.

- Que perigo!

- Éééé! E também, o milagre acontece em Salvador na Bahia: a senhora dona de casa e frequentadora assídua do "Casos de Família" que "morre" pela terceira vez e consegue sair do túmulo e chegar até em casa no mesmo dia. O Genro diz que não sabe mais o que fazer!

- Tem que ver isso aí!

- Tem sim, tem sim! E mais: uns caçam, outros plantam, outros pescam e ainda tem que diz fazer tudo isso de um jeito muito mais sustentável! A magnífica história do senhor de oitenta e seis anos do Rio Grande do Sul que possui uma plantação de bacon no quintal de casa. Ele diz que planta também coxa, sobrecoxa, coxão de asa, filé mignon e soja, é mole?

- Isso é o que você pensa!

- Heheeeexatamente, Charles! Ainda no mesmo bloco, o adestrador de cachorros diz ser, na verdade, a reencarnação de Pelé, o maior jogador de futebol do Brasil - mesmo sem Pelé ter morrido ainda! Como pode uma coisa dessas, Charles?

- Estamos trabalhando nisso!

- Mas que coisa! E, por fim, a bizarra história de Fulguration, o homem que abriu sozinho uma empresa de picles em conserva. Ele planta, colhe, faz os potes de vidro direto da areia, imprime os rótulos na garagem de casa, faz as tampas usando madeira e um facão e vende as conservas pelo site que ele mesmo fez. Depois ele compra tudo e come os picles, caga todos e trata do próprio esgoto. Um exemplo de multifuncionalidade em apenas um homem.

- Isso sim é de cair o cu da bunda!

- Éé, tem que ver isso aí! E mais: a máfia do esterco chinês! Grandes latifundiários chineses escravizam humanos e os mantém prisioneiros com apenas uma finalidade: produzir o esterco que servirá de adubo para suas plantações. Milhares de pessoas desaparecidas estão, na verdade, envolvidas com essa literalmente suja rede de tráfico de esterco.

- Que incrível, Lombradi! Mas chega de spoiler. Vamos aos nossos comerciais e logo voltaremos. Até já!

(Aqui o apresentador faz um gesto com a mão semelhante à lingua de um sapo projetando-se em alta velocidade para fora de sua boca a fim de capturar algum inseto. O auditório levanta de pé - todos, menos a senhora séria da produção - e bate palmas no ritmo da música, que é uma lambada mui caliente.)

2 comentários:

Bolinho disse...

Tem que ver isso aí.




MESMO.pacetim

Pirin MP Maperns disse...

tu és loico né? eu ainda tinha alguma dúvida, mas fato, tú és completamente doudo da cacholeta, meu amigo.