7.21.2010

Pausa para o café: "O Ovo"


Você estava voltando para casa quando morreu.


Acidente de carro. Nada muito incrível, mas, infelizmente, uma fatalidade. Você deixou para trás uma esposa e duas crianças. Foi uma morte sem dor. A equipe de resgate até tentou lhe salvar, sério, mas seu corpo estava tão despedaçado que foi melhor você ter morrido mesmo, acredite.

E foi então que você me encontrou.

"O que... o que aconteceu?" Você perguntou. "Onde estou?"

"Você morreu", respondi. Direto ao ponto, sem meias palavras ou eufemismos inúteis.

"Havia... um caminhão e o meu carro derrapou e..."

"Aham" disse eu, concordando.

"Eu... eu morri mesmo?"

"Sim, mas não se sinta mal por isso. Tipo, todo mundo morre."

Você olhou em volta. Não havia nada, um vazio total. Apenas você e eu.

"O que é esse lugar", você perguntou. "Isso é a vida após a morte?"

"Mais ou menos."

"Você é Deus?"

"Sim", respondi, "eu sou Deus."

"Minha esposa... meus filhos..." dizia você.

"O que tem eles?"

"Eles ficarão bem?"

"Isso, é assim que eu gosto!" respondi. "Você acaba de morrer e sua principal preocupação é com a sua família. Parece que o material aqui é dos bons hein!"

E você, fascinado, olhou para mim. Para você, eu não correspondia à imagem de "Deus". Eu parecia apenas um homem qualquer, ou mulher, possivelmente. Até com um certo ar de autoridade, talvez. Mais para uma professora de gramática do ensino fundamental do seu antigo colégio do que o todo poderoso.

"Não se preocupe", eu disse. "Eles ficarão bem. Seus filhos lembrarão de você como sendo perfeito de todas as maneiras - você morreu antes que eles começassem a criar rancores. Sua esposa irá chorar por fora, mas por dentro, bem por dentro, ela se sentirá aliviada. Pra ser sincero, seu casamento já estava começando a decair. Olha, se serve de consolo, ela vai se se culpar muito por se sentir aliavada dessa forma."

"Oh..." você disse. "E o que acontece agora? Eu vou pro céu, inferno ou algo do tipo?"

"Nem um, nem outro" eu disse. "Você vai reencarnar".

"Ah. Então quer dizer que os hindus estavam certos..."

"Todas as religiões estão certas - cada uma à sua maneira" eu disse. "Agora, venha comigo".

Você começou a caminhar junto comigo através do vazio. "Para onde estamos indo?"

"Pra nenhum lugar em particular." respondi. "É legal caminhar enquanto conversa."

"E então, como vai ser agora?" você perguntou. "Quando eu renascer, serei tipo uma folha em branco, certo? Um bebê. Ou seja, tudo o que eu fiz nessa vida não vai importar, eu vou esquecer de tudo?"

"Não, claro que não!" eu disse. "Você carrega consigo toda a experiência e aprendizado das suas vidas passadas. Você só não está lembrando delas agora."

Parei de caminhar e peguei nos seus ombros. "A sua alma é mais gigantesca, bonita e magnífica doq ue você jamais conseguiria imaginar. A mente humana consegue conter apenas uma pequena fração do que você de fato é. É como afundar seu dedo em um copo d'água para provar se está quente ou fria. Você coloca uma pequena parte de você mesmo em um recepiente e, quando retira-a, traz consigo toda a experiência que conseguiu acumular.

"Você esteve em um corpo humano durante os últimos 48 anos, é normal que ainda não tenha conseguido se desapegar dele e, portanto, também ainda não tenha conseguido sentir toda a imensidão de sua consciência. Se continuarmos por aqui por mais tempo, você vai começar a se lembrar de tudo. Mas, na verdade, não há sentido em fazer isso entre cada vida sua."

"Então... quantas vezes eu já reencarnei?" você perguntou.

"Oh, várias. Muitas e muitas vezes. E em várias vidas diferentes." respondi. "Dessa vez você reencarnará como uma jovem camponesa chinesa no ano de 540 A.C."

"O que, hein? Espera!" você exclamou. "Quer dizer que você vai me mandar de volta no tempo?"

"Bem, tecnicamente. O tempo, da forma como você o conhece, só existe no seu universo. As coisas são um pouco diferentes do lugar que eu vim."

"E de onde você veio?" você perguntou, de imediato.

"Oh claro." expliquei. "Eu vim de algum lugar. Algum... outro lugar. E lá existem outros como eu. Eu sei que você deve estar querendo saber como é lá, mas tenho quase certeza que você não vai entender."

Abaixando a cabeça, você ficou em silêncio por alguns momentos, e então exclamou: "espere, espere um pouco. Se eu reencarno e outros lugares no tempo, eu já posso ter interagido comigo mesmo em algum ponto."

"Mas é claro, acontece todo tempo. E como ambas as vidas têm consciência apenas do próprio ciclo, elas nem ao menos ficam sabendo quando isso acontece."

"Então qual é o sentido disso tudo?"

"Haha, sério?" indaguei. "Sério mesmo? Você está me perguntando qual é o sentido da vida? Isso não é um tanto clichê?"

"Oras, é uma boa hora pra perguntar, não?" você persistiu.

Eu olhei para os seus olhos. "O sentido da vida, o motivo pelo qual eu criei isso tudo, o universo e todas as coisas, é para que você amadureça."

"Você quer dizer a humanidade? Você quer que nós amadureçamos?"

"Não. Só você. Eu fiz todo o universo só pra você. Com cada vida nova você cresce, evolui e sua consciência aumenta cada vez mais."

"... só... eu? E todo o resto?"

"Não há 'resto'. Nesse universo, há apenas você e eu." respondi, calmamente.

Você me olhou, paralizado. "Mas e todas as pessoas na Terra..."

"Você. Diferentes incarnações de você, todas elas."

"Eu sou todo mundo?"

"Ahá, bingo!" exclamei, dando-lhe um tapa nas costas.

"Eu sou todo ser humano que já viveu?"

"E que ainda viverá, sim."

"Eu sou Abraham Lincoln?"

"Sim, você é todos os presidentes dos Estados Unidos também." complementei.

"Eu sou Hitler?" você perguntou, assustado.

"E todos os milhões que ele matou." respondi.

"Eu sou Jesus Cristo?"

"E todos os seus seguidores."

E você calou-se.

"Toda vez que você fez alguma vítima", comecei a falar, "você estava vitimando a si mesmo. Toda vez que você amou alguém, estava amando a si mesmo. Cada ato de bondade que você tinha para com alguém, você estava tendo-o para consigo mesmo também. Todo e qualquer momento feliz ou triste vivido por todo ser humano foi ou será vivido, ao mesmo tempo, por você."

Nos momentos que se seguiram você ficou pensando profundamente nas minhas últimas palavras.

"Por quê?" você perguntou, finalmente. "Por quê tudo isso?"

"Porque um dia você será como eu. É isso que você realmente é. Você é um da minha espécie - você é meu filho."

"Whow" você exclamou, incrédulo. "Eu sou um Deus?"

"Não, ainda não. Você é um feto. Você ainda está crescendo. Assim que tiver vivido toda forma de vida humana possível, você terá crescido o suficiente para nascer."

"Então todo o universo..." você comecou a dizer, "é apenas..."

"Um ovo" completei. "Agora vá, está na hora de você iniciar sua próxima vida."

E eu o enviei para seu caminho.

Autor: Andy Weir

Olá, pessoas. Após muito tempo sem postar, acabo me deparando com esse texto. Decidi traduzi-lo e postá-lo aqui no meu blog, pois é o texto mais bonito que eu já li sobre religiosidade.

Confesso que o encontrei não faz muito tempo, e ele realmente me fez pensar. Coincidência ou não, ele "caiu" em um momento muito oportuno. Apresentei, semana passada, no Encontro Nacional de Estudantes de Design (NDesign 2010), uma "mini-palestra" entitulada "Realidade: um palpite coletivo", que tinha como objetivo promover uma discussão sobre o que, de fato, é essa nossa realidade bizarra. Brincar um pouco com o fantástico, fazer as pessoas perguntarem-se no quê realmente acreditam, no que é verdade, no que é real e no que não é.

O resultado disso, pelo menos pra mim, não poderia ter sido melhor. Vi pessoas tendo idéias, contestando fatos, sendo seus próprios gurus espirituais.

Esse é o preceito da nossa era. Somos nossos próprios deuses, somos nossa própria realidade, somos esse momento, essa fração de segundo.

Enfim, o blog voltará com sua atividade normal em breve. Para os que se interessaram pelo texto, o original segue no link: http://tinyurl.com/34zmut8

7 comentários:

Nayara Gonzalez disse...

nooooossa, que empenho traduzir isso.

como eu já disse antes, não acredito em reencarnação mas achei o texto muito bom. realmente dá o que pensar.

Antonio disse...

wow


simplesmente

Miqueias Stacke disse...

Bah, às vezes eu penso que sou único no universo. Só às vezes.

bolinho disse...

Texto muito lindo, realmente, já me peguei pensando sobre isso. inclusive hoje "como que eu não posso ser as outras pessoas do mundo? eu poderia sentir as outras pessoas ao invéz de estar presa a esse local exato de pensamento?" no final conclui que ng mais existe no mundo, e eu vivo numa bizarra imaginação alheia XP

Juan Diego disse...

texto massa....

Marco Martins disse...

Acabei de pedir uma pizza, vou ver se consigo um desconto de mim mesmo

Ju Coelho disse...

Boli, que texto é incrível!